04/10/2011

Palavra de Vida do mês de outubro/2011

“Segue-me!” (Mt 9,9)

Enquanto saía de Cafarnaum, Jesus viu um cobrador de impostos chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos. Mateus exercia um trabalho que o tornava odioso aos olhos do povo e o igualava aos agiotas e exploradores, que se enriquecem às custas dos outros. Os escribas e os fariseus colocavam-no no mesmo nível dos pecadores públicos, tanto que censuravam Jesus por ser “amigo de publicanos e de pecadores” e comer com eles (cf. Mt 11,19; 9,10-11).
Contrariando toda convenção social, Jesus chamou Mateus a segui-lo e aceitou o convite para almoçar em sua casa, como faria mais tarde com Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos de Jericó. Quando pediram que Jesus explicasse essa atitude, Ele disse que veio para curar os doentes e não os que têm saúde, e que veio chamar não os justos, mas os pecadores. Também dessa vez seu convite era dirigido justamente a um deles:

“Segue-me”

Jesus já havia feito esse chamado a André, Pedro, Tiago e João, às margens do lago. O mesmo convite Ele dirigiria depois, com outras palavras, a Paulo, na estrada de Damasco.
Mas Jesus não se limitou àqueles chamados; no decorrer dos séculos, Ele continuou a chamar para si homens e mulheres de todos os povos e nações. E chama ainda hoje: Ele passa pela nossa vida, encontra-nos em diferentes lugares, de diferentes modos, e faz-nos ouvir novamente o seu convite a segui-lo.
Jesus chama-nos a estar com Ele, porque deseja estabelecer um relacionamento pessoal; ao mesmo tempo, convida-nos a colaborar com Ele no grande projeto de uma nova humanidade.
Ele não se importa com as nossas fraquezas, os nossos pecados, as nossas misérias. Ele nos ama e nos escolhe do jeito que somos. É o seu amor que nos vai transformar e dar forças para responder-lhe e a coragem para segui-lo, como aconteceu com Mateus.
E, para cada um de nós, Ele tem um particular amor, projeto de vida e chamado. É algo que percebemos no coração por meio de uma inspiração do Espírito Santo, ou mediante determinadas circunstâncias, ou por um conselho ou orientação de alguém que nos quer bem... Embora se manifeste nos modos mais diferentes, a mesma palavra continua ecoando:

“Segue-me!”

Lembro-me de quando também eu percebi esse chamado de Deus.
Foi numa manhã gelada de inverno, em Trento, Itália. Minha mãe pediu à minha irmã caçula que fosse buscar o leite, a dois quilômetros de casa. Mas fazia frio demais, e ela não teve coragem. Também minha outra irmã recusou-se a ir. Então eu me adiantei: “Mamãe, eu vou!” Dizendo isso, peguei a garrafa e saí. A meio caminho, acontece um fato especial: tenho a impressão de o Céu como que se abrir e Deus me convidar a segui-lo. “Entregue-se inteiramente a mim”, é o que percebo no coração.
Era o chamado explícito, ao qual quis responder imediatamente. Falei sobre isso com o meu confessor, que permitiu a minha doação a Deus para sempre. Era o dia 7 de dezembro de 1943. Nunca serei capaz de descrever o que se passou no meu coração, naquele dia: Eu tinha desposado Deus! E Dele eu podia esperar tudo.

“Segue-me!”

Essa palavra não se refere apenas ao momento em que decidimos a nossa opção de vida. Dia após dia, Jesus continua a dirigi-la a nós. “Segue-me!”, é o que Ele nos parece sugerir diante dos mais simples deveres cotidianos; “Segue-me!”, naquela provação a ser abraçada, naquela tentação a ser superada, naquele serviço a ser executado...
Como podemos responder concretamente ao seu apelo?
Fazendo o que Deus quer de nós no momento presente, pois cada instante contém sempre uma graça especial.
O nosso empenho para este mês, portanto, será entregar-nos à vontade de Deus com decisão; doar-nos ao irmão e à irmã que devemos amar; doar-nos ao trabalho, ao estudo, à oração, ao repouso, à atividade que temos de desempenhar.
Será aprender a escutar, no profundo do coração, a voz de Deus que fala também pela voz da consciência, dispostos a sacrificar tudo para atuar aquilo que Ele deseja de nós em cada momento e que essa voz nos revelará.
“Faz que te amemos, ó Deus, não só cada dia mais – porque podem ser pouquíssimos os dias que nos restam –; mas faz que te amemos em cada momento presente, com todo o coração, a alma e as forças, naquilo que é a tua vontade”.
Este é o melhor sistema para seguir Jesus.

Chiara Lubich

(Esta Palavra de Vida foi publicada em junho de 2005)

19/09/2011

Palavra de Vida do mês de setembro


«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado» (Lc 15,32).



Esta frase se encontra no final da chamada parábola do filho pródigo – que certamente você conhece – e quer nos revelar a grandeza da misericórdia de Deus. Ela conclui todo um capítulo do Evangelho de Lucas, no qual Jesus narra outras duas parábolas para ilustrar o mesmo assunto.

Lembra-se do episódio da ovelha desgarrada, cujo pastor deixa as outras noventa e nove no deserto para procurá-la? (Cf Lc 15, 4-7)

Lembra-se também da história da dracma perdida e da alegria da mulher que, após encontrá-la, chama as amigas e as vizinhas para se alegrarem com ela? (Cf Lc 15, 8-10)

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Essas palavras são um convite que Deus dirige a você, e a todos os cristãos, de rejubilar-se com ele, de festejar e participar da sua alegria pela volta do homem pecador que antes estava perdido e depois foi encontrado. E, na parábola, essas palavras são ditas pelo pai ao filho mais velho que havia compartilhado toda a sua vida mas que, após um dia de trabalho duro, se recusa a entrar em casa, onde se festeja a volta de seu irmão.

O pai foi ao encontro do filho fiel – assim como foi ao encontro do filho perdido – e procurou convencê-lo. Mas é evidente o contraste entre os sentimentos do pai e os do filho mais velho: de um lado o pai, com o seu amor sem limites e com sua grande alegria, da qual gostaria que todos participassem; de outro lado o filho, cheio de desprezo e de ciúme de seu irmão, que ele não reconhece mais como irmão. Com efeito, falando dele, diz: “Este teu filho, que devorou teus bens”. (Lc 15,30)

O amor e a alegria do pai pelo filho que voltou evidenciam ainda mais o rancor do outro, rancor que indica um relacionamento frio – diríamos até falso – com o próprio pai. A este filho importa o trabalho, o cumprimento do seu dever; mas ele não ama o pai como um verdadeiro filho. Ao contrário, mais parece que lhe obedece como a um patrão.

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com essas palavras Jesus denuncia um perigo em que também você pode incorrer: viver apenas para ser uma “pessoa de bem”, baseando sua vida na busca da perfeição e criticando os irmãos “menos perfeitos”. Na verdade, se você estiver “apegado” à perfeição, construirá o seu ego sem Deus, ficará cheio de si, cheio de admiração pela própria pessoa. Será como o filho que permaneceu em casa, e que enumera ao pai os seus méritos: “Há tantos anos que eu te sirvo e jamais transgredi um só dos teus mandamentos” (Lc 15,29).

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com essas palavras, Jesus se contrapõe à atitude segundo a qual a relação com Deus estaria fundamentada apenas na observância dos mandamentos. Essa observância, porém, não é suficiente. Também a tradição judaica está bem consciente disso.

Nessa parábola Jesus põe em evidência o Amor divino, mostrando como Deus, que é Amor, dá o primeiro passo em direção ao homem, sem levar em consideração se ele merece ou não; Deus quer que o homem se abra a ele para poder estabelecer uma autêntica comunhão de vida. Naturalmente, como você pode entender, o maior obstáculo diante de Deus-Amor é justamente a vida daqueles que acumulam ações, obras, enquanto Deus quer simplesmente o coração deles.

«Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado»

Com essas palavras, Jesus convida você a ter, diante do homem pecador, o mesmo amor sem limites que o Pai tem para com ele. Jesus o convida a não julgar, segundo a sua própria medida, o amor que o Pai tem para com qualquer pessoa. Convidando o filho mais velho a compartilhar a sua alegria pelo filho encontrado, o Pai pede também a você uma mudança de mentalidade. Na prática, você deve acolher como irmãos também aqueles homens e mulheres pelos quais nutriria apenas sentimentos de desprezo e de superioridade. Isto provocará em você uma verdadeira conversão, porque o purifica da sua convicção de ser “mais perfeito”, evita que você caia na intolerância religiosa e o faz acolher, como puro dom do amor de Deus, a salvação que Jesus lhe proporcionou.

Chiara Lubich
(Esta Palavra de vida foi publicada originalmente em março de 2001)

16/09/2011


Recebi um e-mail hoje convocando para uma marcha na Avenida Paulista, ainda sem data definida, para pedir a demissão de toda a classe política. Apesar de ser louvável tal indignação, creio não ser esse o melhor caminho a ser adotado. Vejamos bem. Todo homem é um ser político, mesmo aquele cidadão que não possui cargo ou função na esfera pública. Como ser político, deveríamos nos sentir co-responsáveis pelas decisões e projetos que são elaborados pelos agentes políticos, nossos representantes através do sufrágio universal, o voto. Ocorre, porém, que boa parte dessa mesma população sequer lembra em quem foi que votou na última eleição. Isso significa que as pessoas não votam de forma consciente. E se não existe uma consciência política, não é possível ocorrer mudanças realmente significativas no contexto político e social de nosso país.
Concordo quando o autor do e-mail elenca que é necessário reduzir as mordomias, criminalizar o enriquecimento ilícito e criar mecanismos para que o dinheiro volte aos cofres públicos, mas para que ocorra uma “reforma” na arena política de nosso país, é necessário que antes, ocorra um esclarecimento da população, uma desalienação política, e tal fato só é possível através de um conhecimento crítico sobre a realidade existente.
Não é reduzindo o número de deputados e nem extinguindo os institutos Público que se conseguirá eliminar com a corrupção; isso, no máximo, vai abrir oportunidade para outros aproveitadores. O que é necessário é que o povo faça seu papel, que é o de acompanhar e fiscalizar o que o governo, através de seus representantes, está fazendo com o dinheiro público. E aí nos deparamos com uma questão crucial: como exercer tal papel sem uma consciência de classe intrínseca em si? E como ter essa consciência, se o cotidiano do trabalhador não permite tempo para reflexão?É, mudar a realidade sem mudar antes as consciências, é no mínimo, um pensamento bem utópico

13/09/2011



Hoje em dia os escândalos com os desvios do dinheiro público para contas particulares já estão virando rotina. Tem sempre uma novidade, é um que utiliza para pagar a empregada, outro que se utiliza do cargo para beneficiar parentes e assim vai. O “povo” fica indignado, políticos corruptos, ladrões, indignos de confiança e etc. Porém, na hora de demonstrar toda essa indignação, esse mesmo povo vota naqueles políticos, que antes foram tachados de corruptos e inescrupulosos. Até quando viveremos nessa hipocrisia? Sempre ouvimos dizer que “uma andorinha só não faz verão”, e concordo com isso. Mas então, porque em uma sociedade onde a MAIORIA é composta por pessoas excluídas social e financeiramente, é dirigida e tem sua conduta moral e cultural determinada por uma MINORIA? Isso se chama o poder da ideologia. E infelizmente, esse poder o povo não possui. Não é a ideologia do proletário, do trabalhador, que é ensinada nas escolas, nos berçários, nas residências, nos programas de TV. É a ideologia do capitalista, do detentor da maior parte da riqueza que é produzida pela população, e que possui até mesmo, o poder de manipular os desejos e sonhos desse povo.
Acredito que toda luta, todo esforço de reação é benéfico, porém terá sempre como meta uma utopia ideológica, se na base, entre o próprio povo, não existir a consciência de si como classe, como seres integrantes de um sistema excludente e exclusivo, cujo baluarte é o individualismo e o consumismo. Conhecer o que existe por trás dessa ideologia, dessa “cultura” tão brasileira, deve ser primordial para entender de que forma podemos mudar a realidade.